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Início Economia

Crédito subsidiado cresce no governo Lula e aumenta pressão sobre juros, aponta Banco Central

Portal dos Órgãos Públicos por Portal dos Órgãos Públicos
10 de junho de 2026
em Economia
Crédito subsidiado cresce no governo Lula e aumenta pressão sobre juros, aponta Banco Central
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O avanço das linhas de crédito com juros subsidiados durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem chamado a atenção do Banco Central e de analistas do mercado financeiro. Dados da autoridade monetária mostram que o chamado crédito direcionado voltou a ganhar espaço na economia brasileira, movimento que, segundo o BC, reduz a eficácia da política monetária e contribui para a manutenção da taxa Selic em níveis elevados.

O crédito direcionado reúne financiamentos destinados a finalidades específicas definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Nessa modalidade estão incluídos empréstimos para habitação, crédito rural, infraestrutura e programas de incentivo a determinados setores econômicos. Em geral, essas operações contam com taxas de juros mais baixas, prazos maiores e algum tipo de subsídio, garantia pública ou fonte de recursos mais barata.

Na avaliação do Banco Central, a expansão dessas linhas exige um esforço maior da política monetária para controlar a inflação. Como parte relevante dos financiamentos não acompanha diretamente as oscilações da taxa básica de juros, a autoridade monetária precisa manter a Selic em patamar mais elevado para produzir o mesmo efeito sobre a atividade econômica.

Atualmente, a taxa básica está em 14,5% ao ano. Segundo o BC, o aumento do crédito direcionado é um dos elementos que dificultam o processo de desinflação e influenciam a chamada taxa de juros neutra da economia.

Em ata divulgada após reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada em abril, a instituição afirmou que “o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”.

O setor imobiliário figura entre os mais impactados quando as taxas de juros permanecem elevadas. Segundo a análise de Luciano Mestrich, o acompanhamento constante do mercado torna-se indispensável para fundamentar decisões mais precisas e estratégicas nesse contexto.

Participação do crédito direcionado volta a crescer

Os números do Banco Central indicam uma mudança de trajetória em relação aos anos anteriores. Depois de registrar queda durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a participação do crédito direcionado voltou a avançar sob a gestão Lula.

Em março de 2026, essas operações representavam 43,1% de todo o estoque de crédito da economia brasileira, o maior percentual desde 2019.

Analistas observam que a ampliação dessas linhas ocorreu em meio às restrições impostas pela regra fiscal e à proximidade do calendário eleitoral. Na prática, programas de financiamento subsidiado passaram a funcionar como um instrumento de estímulo econômico em diferentes segmentos.

Nos últimos anos, o governo anunciou ou ampliou iniciativas voltadas para aquisição de máquinas agrícolas, expansão do Minha Casa, Minha Vida, financiamento para taxistas e motoristas de aplicativos, Plano Safra, renovação de frotas de caminhões e ônibus, apoio a microempreendedores de baixa renda e programas para setores afetados por crises internacionais.

Também foram criadas ou fortalecidas linhas voltadas à reforma de imóveis, renegociação de dívidas por meio do Desenrola 2.0, nova política industrial, crédito imobiliário para pessoas físicas, Fundo Clima, fundo para florestas tropicais e renegociação de dívidas agropecuárias.

Diferença entre juros livres e subsidiados

A distância entre as taxas cobradas nas diferentes modalidades de crédito ajuda a explicar o debate.

De acordo com a série histórica do Banco Central, a taxa média dos empréstimos direcionados ficou em 9,3% ao ano entre março de 2011 e março de 2026.

No mesmo período, as operações com recursos livres, que seguem mais diretamente as condições de mercado, registraram taxa média de 38,8% ao ano.

Isso significa que o custo médio do crédito livre foi quase quatro vezes superior ao observado nas linhas subsidiadas.

Para especialistas, essa diferença cria distorções porque parte dos tomadores de crédito tem acesso a condições muito mais favoráveis, enquanto os demais enfrentam juros mais elevados.

Analistas veem impacto sobre a política monetária

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, afirma que o governo deveria priorizar uma estratégia baseada em redução de despesas públicas para permitir uma queda mais ampla dos juros.

“O governo escolhe o caminho que parece ser mais fácil, mas na verdade é o mais difícil. Atrapalha o Banco Central e gera resultados que, muitas vezes, são só de curto prazo e são agravantes para a situação econômica do país quando a gente olha no longo prazo”, avaliou.

A discussão não é nova. Em 2023, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, utilizou o exemplo da meia-entrada no cinema para explicar o efeito do crédito subsidiado sobre o restante da economia.

“No crédito direcionado, a gente pode fazer a análise do cinema que vende a meia-entrada. Se eu vendo muita meia-entrada e quero ter o mesmo lucro, a entrada inteira eu tenho que subir o preço. O crédito funciona um pouco assim”, afirmou.

Campos Neto também comparou o sistema de crédito a um tubo por onde circulam os financiamentos da economia. Segundo ele, quando uma parcela significativa opera com juros reduzidos, a autoridade monetária precisa aumentar a pressão sobre o restante do sistema por meio de taxas mais altas.

O atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também reconheceu recentemente a necessidade de reformas estruturais para melhorar a transmissão da política monetária. Segundo ele, será necessário “desobstruir os canais” para que os juros produzam efeitos mais eficientes sobre a inflação.

Brasil tem percentual elevado em comparação internacional

Embora a comparação internacional seja limitada pela falta de estatísticas padronizadas, estimativas do Banco Central apontam que o Brasil apresenta participação de crédito direcionado superior à observada em diversos países.

Enquanto o percentual brasileiro gira em torno de 43% do crédito total, o México registra aproximadamente 26%. Em boa parte das economias analisadas pela autoridade monetária, a participação fica abaixo de 5%.

A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) concorda que uma parcela maior de crédito subsidiado reduz a potência da política monetária. Ainda assim, a entidade ressalta que o avanço recente permanece distante dos níveis observados entre 2016 e 2017, quando a participação dessas linhas chegou perto de 50% do mercado.

Para a associação, a interferência governamental na formação dos juros tende a gerar distorções na alocação de recursos. Ao mesmo tempo, juros básicos elevados ampliam o custo da dívida pública, que já alcança cerca de 80% do Produto Interno Bruto (PIB), formando um ciclo que dificulta o equilíbrio das contas públicas e pressiona a economia no longo prazo.

Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/nesta-foto-ilustracao-sendo-mostradas-notas-de-cinquenta-e-duzentos-reais-e-uma-moeda-de-um-real-em-destaque-o-real-e-o-dinheiro-atual-no-brasil_17074692.htm

Tags: Lula
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