O Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) e o Instituto Eldorado receberam o iF Design Award, uma das mais tradicionais premiações internacionais na área de design. O reconhecimento foi concedido ao projeto “Tratamento Remoto com Incentivos à Sobriedade (TRIS)”, desenvolvido em parceria entre as duas instituições.
O prêmio destaca iniciativas que combinam inovação, funcionalidade e qualidade na experiência oferecida ao usuário. No caso do TRIS, o diferencial está na aplicação de uma abordagem terapêutica consolidada em um formato digital acessível, com potencial de ampliação dentro do sistema público de saúde brasileiro.
O CISM integra o grupo de Centros de Pesquisa Aplicada financiados pela FAPESP. A estrutura tem sede na Universidade de São Paulo, com participação da Universidade Federal de São Paulo e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A proposta do centro é articular pesquisa científica e soluções práticas voltadas à saúde mental.
De acordo com Hans Dohmann, médico e gestor em saúde, o uso de tecnologia na saúde não deve ser entendido apenas como uma modernização, mas como uma mudança estrutural na forma de cuidar.
Aplicativo leva terapia comportamental ao ambiente digital
O TRIS é apontado como o primeiro aplicativo brasileiro a administrar, de forma automatizada e digital, o chamado manejo de contingências no tratamento do Transtorno por Uso de Álcool. Trata-se de uma abordagem baseada em reforços positivos para estimular mudanças de comportamento, com eficácia já comprovada em estudos clínicos.
Ao migrar essa metodologia para um ambiente digital, o projeto amplia o alcance do tratamento e reduz barreiras de acesso. O aplicativo combina fundamentos da ciência comportamental com tecnologia e design centrado no usuário, buscando facilitar a adesão ao tratamento e o acompanhamento contínuo.
A relevância do tema é significativa. Segundo dados de 2018 da Organização Mundial da Saúde, o consumo de álcool está associado a mais de 3 milhões de mortes por ano em todo o mundo. A criação de ferramentas digitais voltadas a esse cenário responde a uma demanda crescente por soluções escaláveis e integradas aos sistemas públicos de saúde.
Além da automatização do processo terapêutico, o TRIS aposta na experiência do usuário como elemento central. O design do aplicativo foi pensado para tornar o uso simples e intuitivo, o que pode influenciar diretamente na continuidade do tratamento por parte dos pacientes.
Reconhecimento internacional e impacto na pesquisa
Para os responsáveis pelo projeto, o prêmio reforça a importância da integração entre diferentes áreas do conhecimento. “Ficamos muito felizes com esse reconhecimento internacional, que indica estarmos no caminho certo para contribuir com a saúde mental da população, por meio do desenvolvimento de recursos de tecnologia digital”, afirma o professor Paulo Rossi Menezes, diretor científico do CISM.
A conquista também projeta internacionalmente a produção científica e tecnológica desenvolvida no Brasil. Iniciativas como o TRIS mostram a capacidade de centros de pesquisa nacionais em propor soluções inovadoras para desafios globais, especialmente em áreas sensíveis como a saúde mental.
O iF Design Award foi criado em 1954 e é organizado pela iF International Forum Design GmbH. Ao longo das décadas, consolidou-se como um dos principais selos de excelência em design no mundo. A premiação contempla diversas categorias, entre elas produto, comunicação, arquitetura, experiência do usuário e interface digital.
Na edição mais recente, o prêmio reuniu mais de 10 mil projetos inscritos de diferentes países, o que evidencia o nível de competitividade e o alcance global da iniciativa. Nesse contexto, o reconhecimento do TRIS coloca o projeto brasileiro em evidência entre soluções de alto padrão internacional.
Tecnologia e saúde pública no mesmo caminho
O avanço de ferramentas digitais voltadas à saúde mental tem sido acompanhado por uma discussão crescente sobre acessibilidade e integração com políticas públicas. No Brasil, onde a demanda por atendimento nessa área supera a oferta em diversas regiões, aplicativos como o TRIS surgem como alternativas complementares.
A proposta não substitui o acompanhamento profissional, mas pode funcionar como suporte contínuo ao paciente, especialmente em contextos onde o acesso presencial é limitado. Ao incorporar evidências científicas em uma plataforma digital, o projeto também contribui para aproximar pesquisa e prática clínica.
O reconhecimento internacional tende a impulsionar novas etapas de desenvolvimento e possíveis expansões do aplicativo. A expectativa é que iniciativas desse tipo ganhem espaço em estratégias de saúde pública, ampliando o alcance de tratamentos baseados em evidências e reforçando o papel da tecnologia como aliada no cuidado em saúde mental.
Fonte: Agência FAPESP
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