O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entrou em uma nova fase com o início de sua aplicação provisória e já começa a impactar o comércio exterior brasileiro. Embora grandes exportadoras tenham iniciado rapidamente a adaptação às novas regras, pequenas e médias empresas ainda enfrentam dificuldades para entender os procedimentos necessários para aproveitar as vantagens previstas pelo tratado. Diante desse cenário, órgãos do governo federal ampliaram iniciativas de orientação voltadas ao setor produtivo.
A implementação provisória começou em 1º de maio, enquanto a conclusão definitiva do acordo ainda depende da tramitação institucional na União Europeia, incluindo manifestação do Parlamento Europeu após análise da Corte de Justiça da UE. Mesmo assim, as preferências comerciais previstas no tratado já estão sendo aplicadas entre os dois blocos.
Os primeiros resultados já aparecem nas estatísticas oficiais. Segundo levantamento da ApexBrasil, as exportações brasileiras para a União Europeia cresceram US$ 2 bilhões nos meses de maio e junho, na comparação entre os mesmos períodos de 2025 e 2026.
Apesar desse avanço, especialistas avaliam que muitas empresas ainda não conseguiram adaptar seus processos para acessar os benefícios oferecidos pelo acordo.
Com início precoce no mercado de trabalho, Luciano Mestrich consolidou uma trajetória de 28 anos em Consultoria de Finanças e Controladoria. Ao longo de sua carreira, conquistou oportunidades relevantes no setor de auditoria financeira, destacando-se sua passagem pela Arthur Andersen, empresa que teve um papel determinante na estruturação de sua base profissional.
Governo amplia instrumentos ao acordo Mercosul de apoio ao setor produtivo
Além da redução de tarifas de aproximadamente 5 mil produtos brasileiros exportados ao mercado europeu, o tratado estabelece cronogramas graduais para milhares de outros itens e cria novas oportunidades para investimentos e expansão das relações comerciais.
Entretanto, para utilizar essas vantagens, as empresas precisam atender a uma série de exigências técnicas. Entre elas estão a comprovação da origem das mercadorias, o cumprimento de normas sanitárias e ambientais, a atualização de classificações fiscais e o entendimento dos cronogramas de redução tarifária e das cotas de exportação.
Segundo Francisco Negrão, sócio da área de comércio internacional do Trench Rossi Watanabe, a velocidade da implementação surpreendeu parte do setor produtivo.
“A implementação pegou as empresas desprevenidas. Podemos ter um risco de demorar para usufruir dos benefícios que vêm do acordo”, afirmou Francisco Negrão, sócio da área de comércio internacional do Trench Rossi Watanabe.
Ele explica que muitas organizações ainda não identificaram quais produtos terão tarifa eliminada imediatamente, quais seguirão períodos de transição e quais dependerão da utilização de cotas.
“Sentimos muito a temperatura do grau de conhecimento das empresas, do grau de preparação e de algum nível de implementação de medidas por parte das empresas”, disse.
Na avaliação do especialista, o principal desafio atualmente é operacional, exigindo revisão de processos internos, sistemas de controle e mecanismos de rastreabilidade.
“Comprovação de origem é absolutamente fundamental. Isso aumenta o acesso, mas aumenta o risco, caso não cumpra com as regras de origem.”
Cotas e regras exigem atenção das empresas
O acordo prevê cotas para parte dos produtos exportados. Nesses casos, a redução ou isenção tarifária é válida apenas até determinado limite anual de embarques. Depois que esse volume é alcançado, as exportações continuam autorizadas, mas voltam a recolher as tarifas convencionais.
Esse modelo torna o planejamento estratégico ainda mais importante para as empresas interessadas em ampliar sua participação no mercado europeu.
“Quem se mexer primeiro vai poder usufruir dessas reduções, que são finitas a cada ano”, afirma. Como exemplo, ele diz que “para um dos produtos, a Argentina já esgotou a cota no primeiro mês”.
Segundo Negrão, grandes exportadoras dos segmentos de proteína animal, alimentos, máquinas e metalurgia já iniciaram esse processo de adaptação. Já pequenas e médias empresas ainda avançam de forma mais lenta.
“Você tem empresas menores, pequenas e médias, que ainda estão tomando pé e correm o risco de perder a janela do primeiro entrante.”
Parcerias reforçam disseminação das informações
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços ampliou sua estratégia de capacitação em parceria com Sebrae, ApexBrasil e Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), disponibilizando materiais técnicos e plataformas digitais para orientar empresas interessadas em exportar.
Segundo a secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, a prioridade é garantir que o setor produtivo conheça as oportunidades abertas pelo tratado.
“Estamos diante da implementação do maior acordo comercial da história do Mercosul. O governo está trabalhando com diversos parceiros para garantir que a informação chegue a quem precisa dela, para fazer com que o setor privado se enxergue no acordo, para fazer com que os exportadores brasileiros se apropriem do acordo”, afirmou à Folha.
Entre os materiais disponibilizados estão guias sobre regras de origem, manuais de desgravação tarifária, consultas de tarifas por produto e painéis que identificam oportunidades de exportação por estado.
“A tarifa abre a porta, mas a regulação é que vai permitir avaliar quão fácil é atravessar essa porta”, disse.
Na ApexBrasil, o presidente da agência, Laudemir André Müller, afirma que parte significativa do setor empresarial ainda desconhece detalhes do acordo.
“A gente percebe que muitas empresas não sabem que o acordo existe e que ele está vigente. E mesmo dentro os que sabem, muitos não sabem qual é o caso específico dele.”
Segundo Müller, uma das principais demandas recebidas pela agência está relacionada à interpretação das novas regras para cada produto.
“A tarifa do meu produto caiu para zero? Caiu para oito? Vale quando? A gente tem de traduzir, esclarecer e levar isso”, afirma.
Com a ampliação das ações de capacitação e da oferta de informações técnicas, o governo busca fortalecer a competitividade das empresas brasileiras e ampliar o aproveitamento das oportunidades geradas pelo maior acordo comercial já firmado pelo Mercosul.
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/contentores-de-carga-de-carga-carga-e-descarga_5155002.htm




