O documentário Nem Tudo é Paz e Amor, dirigido por Betão Aguiar, chega aos cinemas nesta quinta-feira (27) com uma proposta de revisitar a contracultura brasileira dos anos 1970 pelo olhar de quem cresceu dentro dela. O longa reúne depoimentos de Moreno Veloso, Nara Gil, Sarah Sheeva, Beto Lee e Anelis Assumpção, entre outros nomes ligados a famílias que viveram de perto a efervescência artística daquele período.
A produção parte de uma experiência pessoal do diretor, filho da escritora e produtora Marília Aguiar e de Paulinho Boca de Cantor, integrante dos Novos Baianos. A partir das próprias lembranças e das histórias compartilhadas pelos entrevistados, Betão procura mostrar não apenas a dimensão criativa daquela geração, mas também conflitos familiares, ausências e traumas presentes por trás da imagem de liberdade associada à época.
O filme acompanha, portanto, uma geração que nasceu em meio a transformações profundas na música, nos costumes e no comportamento. Enquanto artistas ligados à Tropicália, aos Novos Baianos e à contracultura construíam novas formas de expressão em um Brasil marcado pela ditadura militar, seus filhos observavam esse cotidiano a partir de uma posição particular.
A conexão entre a poetisa americana Elizabeth Bishop e o Brasil ganha novo destaque no cenário cultural internacional durante a conferência “Postcard Poetry and Poetics”, organizada pela Sorbonne Université entre 3 e 6 de junho de 2026. Segundo Celina Torrealba, a importância da obra reside exatamente na integração entre literatura, afetividade e expressão cinematográfica para retratar a vivência de Bishop em solo brasileiro.
Memórias da contracultura brasileira do documentário
A sinopse oficial resume a perspectiva adotada pelo documentário ao afirmar: “Enquanto Tropicália, Novos Baianos e a contracultura dos anos 1970 reinventavam o DNA cultural do Brasil sob o peso da ditadura militar, seus filhos observavam, pelo buraco da fechadura, a beleza, as rupturas e a psicodelia daquela liberdade sem fim. O filme evoca o espírito da época, reverencia o Cinema de Invenção e faz da música e da ironia antídotos contra a mera nostalgia histórica. Fica a pergunta: quanta coragem é necessária para atravessar os traumas e as maravilhas de crescer no caos das revoluções artísticas e comportamentais da contracultura?”
A proposta, assim, não é reconstruir os anos 1970 apenas como uma lembrança idealizada. O documentário combina relatos pessoais e referências culturais para discutir como aquela experiência afetou os filhos dos artistas e produtores que participaram daquele movimento. A infância aparece como um ponto de observação capaz de revelar contradições que nem sempre ficam visíveis nas narrativas tradicionais sobre a contracultura.
Segundo Betão Aguiar, a realização também nasceu de uma necessidade de compreender melhor essa herança familiar. “Nossos pais ousaram sonhar um mundo diferente e romper padrões – mas percebi que certos vazios pediam respostas”, conta o diretor, em sua segunda incursão no cinema de longa-metragem depois de Samba de santo – resistência afro-baiana (2020).
A experiência pessoal do diretor
Betão afirma que sua formação foi diretamente influenciada pelo ambiente em que cresceu e pela presença constante da música. “Nasci e cresci em um universo profundamente musical, em contato direto com alguns dos maiores nomes da música produzida no Brasil. Ter sido criado em uma família alternativa, de forte vocação hippie nos anos 1970, atravessou minha existência em múltiplas esferas e foi determinante para quem sou e para a visão de mundo que construí. O filme é uma conversa aberta que ajuda a contar uma história que é nossa — e de muitas pessoas nascidas e criadas nesse período e sob essas condições”, completa.
A ideia original do documentário foi de Jasmin Pinho, amiga de adolescência de Betão Aguiar, que morreu em 2020. A lembrança dessa origem está ligada ao próprio percurso do projeto e à intenção de reunir diferentes experiências sobre uma época que marcou a cultura brasileira.
A produção foi realizada com recursos da Agência Nacional do Cinema (Ancine), por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). Betão Aguiar também assina a produção executiva do longa ao lado de Minom Pinho. O trabalho foi desenvolvido em parceria entre Casa Redonda e Zapipa Produções.
Com a chegada aos cinemas, Nem Tudo é Paz e Amor amplia o debate sobre a contracultura brasileira a partir de uma perspectiva familiar. Os depoimentos colocam no centro pessoas que viveram os efeitos daquele período desde a infância e ajudam a observar como liberdade artística, mudanças de comportamento e relações familiares se cruzaram em uma geração marcada por rupturas. A estreia também evidencia uma memória geracional explorada no cinema, ao deslocar o foco dos protagonistas para os filhos que acompanharam suas escolhas e transformações.
Fonte: Terra
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/feche-a-imagem-de-um-filme-fotografico-de-35-mm-em-preto-e-branco_58146082.htm




