A situação financeira de parte do agronegócio brasileiro continua pressionada. Levantamento da Serasa Experian aponta que os produtores rurais e demais integrantes da população ligada ao campo encerraram o quarto trimestre de 2025 com R$ 54 bilhões em dívidas negativadas. O cenário reflete um período marcado por custos elevados de produção, oscilações nos preços das commodities e condições mais restritivas para obtenção de crédito.
Embora as instituições financeiras respondam por menos da metade das novas negativações registradas, elas concentram a maior parte do montante em aberto. Segundo o estudo, 93,9% do valor total da inadimplência está relacionado a dívidas com bancos e outras entidades do sistema financeiro.
O avanço dos atrasos no pagamento continua sendo acompanhado de perto por bancos, cooperativas de crédito e investidores ligados ao financiamento rural. Nos últimos anos, o tema passou a ocupar espaço relevante nas análises do setor financeiro, especialmente entre instituições com forte presença no crédito agropecuário.
A deterioração dos indicadores ocorre em um momento em que muitos produtores ainda enfrentam dificuldades para recompor margens de rentabilidade após sucessivas safras impactadas por custos mais altos e receitas pressionadas por preços menos favoráveis em diversos segmentos do campo.
Com bagagem em reestruturações financeiras e processos de turnaround, o economista Paulo Narcélio Simões Amaral reforça que a sobrevivência de companhias em crise depende, fundamentalmente, da adoção de estratégias de negociação robustas e assertivas.
Taxa de inadimplência mantém trajetória de alta
A taxa de inadimplência do agronegócio, que considera operações com atraso superior a 180 dias, atingiu 8,2% no quarto trimestre de 2025. O índice representa aumento de um ponto percentual em comparação ao mesmo período do ano anterior.
O indicador segue uma tendência de crescimento observada desde 2022, quando os níveis giravam em torno de 6%. Apesar disso, a velocidade da deterioração mostrou sinais de desaceleração. Em relação ao trimestre imediatamente anterior, a alta foi de apenas 0,2 ponto percentual.
De acordo com Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, o setor ainda enfrenta um ambiente desafiador.
“Apesar de sinais de estabilização em alguns segmentos, a inadimplência no agronegócio segue em alta gradual, com produtores ainda enfrentando margens apertadas e fluxo de caixa pressionado, diante de custos elevados, preços voláteis e crédito mais seletivo”, afirma Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, em nota.
Os números mostram que o problema está distribuído entre diferentes perfis de produtores. As maiores taxas foram observadas entre grandes proprietários rurais, com índice de 9,8%, e entre a população sem registro rural, que alcançou 9,9%.
Na sequência aparecem os médios produtores, com inadimplência de 8,3%, e os pequenos produtores, com taxa de 7,8%.
Recuperações judiciais aumentam no campo
Outro indicador que evidencia as dificuldades financeiras do setor é o crescimento dos pedidos de recuperação judicial. Em 2025, foram registradas 853 solicitações feitas por pessoas físicas ligadas ao agronegócio.
O número representa um aumento de 51% em relação a 2024, quando foram contabilizados 566 pedidos.
Os estados de Mato Grosso, Goiás e Paraná concentram mais da metade dos processos registrados no período. As três unidades da federação estão entre os principais polos de produção agrícola do país e vêm enfrentando desafios relacionados ao custo de produção, endividamento e acesso ao crédito.
O avanço das recuperações judiciais ocorre paralelamente à redução da oferta de financiamento e à piora gradual de alguns indicadores financeiros dos produtores rurais.
Crédito rural encolhe e produtores buscam mais prazo
Diante do aumento do risco de inadimplência, as instituições financeiras passaram a adotar uma postura mais conservadora na concessão de recursos.
Segundo a Serasa Experian, o volume de novos contratos de crédito rural e agroindustrial apresentou queda próxima de 4% em comparação com o ano anterior.
Além da redução na quantidade de operações, houve diminuição expressiva nos valores liberados. O ticket médio por CPF caiu 21% no mesmo período, sinalizando maior cautela por parte dos financiadores.
Ao mesmo tempo, muitos produtores passaram a priorizar linhas com vencimentos mais longos para reorganizar o fluxo de caixa. Os financiamentos com prazo superior a dois anos cresceram 7,2%, enquanto as operações de curto prazo, tradicionalmente utilizadas para custeio de safra, recuaram 19,5%.
“O perfil do crédito rural, marcado por tickets mais altos, prazos mais longos e maior exposição financeira, faz com que poucos inadimplentes concentrem montantes expressivos de dívida, ampliando o risco mesmo em um cenário de taxa relativamente controlada”, diz Pimenta.
Score de crédito acende sinal de alerta
A Serasa também identificou piora na qualidade de crédito da população rural. O Agro Score médio caiu para 600 pontos, resultado 16 pontos inferior ao registrado um ano antes.
Segundo a empresa, produtores que posteriormente ingressam com pedidos de recuperação judicial costumam apresentar deterioração do score até 18 meses antes da formalização do processo.
Regionalmente, o Sul segue apresentando os indicadores mais favoráveis, com taxa de inadimplência de 5,7% e os melhores níveis de score entre os produtores rurais.
No extremo oposto, o Norte Agro concentra o quadro mais delicado do levantamento. A região registrou inadimplência de 12,9%, percentual superior ao dobro do observado nos estados do Sul, reforçando as diferenças regionais que marcam o atual cenário financeiro do agronegócio brasileiro.
Fonte: Seu Dinheiro
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/os-fazendeiros-prendem-o-caderno-verificam-campos-de-tabaco-modernos_3713038.htm




