O Brasil atravessa um novo ciclo de investimentos em infraestrutura. Depois de anos de baixa participação do setor no Produto Interno Bruto (PIB), os recursos destinados à energia, transportes, saneamento, telecomunicações e outros segmentos voltam a crescer, impulsionados por concessões, parcerias público-privadas e programas de investimento. Mais do que ampliar a capacidade física do país, grandes projetos podem modificar a dinâmica econômica e social dos territórios ao melhorar o acesso a serviços, reduzir gargalos e criar condições para novas atividades.
Para o engenheiro Jorge Henrique Marques Valença, especialista na gestão e execução de empreendimentos de grande porte nos segmentos de saúde, mobilidade, infraestrutura urbana, cultura e edificações especiais, além de sócio-diretor da Lumali Engenharia, o desempenho de uma obra começa muito antes do canteiro, uma vez que o impacto de um empreendimento depende da capacidade de transformar recursos em estruturas que respondam às necessidades do território e mantenham seu desempenho ao longo do tempo.
“Uma obra de infraestrutura não deve ser analisada apenas pelo que é construído, mas pelo que ela passa a viabilizar. O verdadeiro impacto está na capacidade de melhorar serviços, conectar pessoas, movimentar a economia e criar condições para que uma região se desenvolva de forma sustentável”, avalia.
O novo ciclo de infraestrutura e o desafio de transformar capital em desenvolvimento
A dimensão dos investimentos previstos ajuda a explicar a importância dessa discussão. Estudo do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) estima investimentos médios de R$757 bilhões por ano entre 2025 e 2029 nos 21 setores analisados, no cenário-base. Desse total, 42,5% correspondem à infraestrutura. O estudo relaciona esse ciclo à combinação de políticas públicas, concessões, PPPs e à necessidade de manutenção, modernização, digitalização e ampliação da capacidade instalada.
A dimensão do desafio, porém, aparece quando o volume investido é comparado às necessidades do país. Segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), os investimentos em infraestrutura chegaram a aproximadamente R$280 bilhões em 2025, novo recorde, mas ainda abaixo dos cerca de R$497,7 bilhões anuais estimados como necessários durante uma década para atender às demandas do setor. A diferença mostra que o desafio brasileiro não está apenas em ampliar o fluxo de capital, mas em aumentar a capacidade de transformar investimentos em ativos que funcionem, atendam à demanda e preservem seu desempenho ao longo do tempo.
Nesse processo, a engenharia ultrapassa a função de execução. Estudos de viabilidade, compatibilização de projetos, controle de custos, gestão de riscos e acompanhamento de cronogramas passam a influenciar diretamente a eficiência econômica do empreendimento.
“Em projetos de grande porte, pequenas decisões podem produzir efeitos significativos sobre custo, prazo, segurança e desempenho futuro. Por isso, eficiência não deve ser medida apenas pela capacidade de concluir uma obra, mas pela capacidade de preservar o valor do investimento durante toda a sua vida útil”, avalia Jorge Valença.
O retorno da infraestrutura aparece além do canteiro de obras
O impacto desse processo também pode ser observado em indicadores diretamente relacionados à população. Dados do painel de efetividade do BNDES mostram que, em 2025, os projetos analisados contribuíram para ampliar o acesso à rede coletora de esgoto para 8,15 milhões de pessoas e ao abastecimento de água para 3,23 milhões. Na mobilidade, os projetos contribuíram para ampliar em 1,5 milhão de usuários por dia útil a demanda atendida por sistemas de transporte de média e alta capacidade.
“Os indicadores mostram que o resultado de uma obra não se encerra na entrega física. O valor aparece quando aquela infraestrutura passa a funcionar, reduzir um gargalo, ampliar o acesso a um serviço ou criar condições para que novas atividades se desenvolvam”, destaca Valença.
Engenharia como elo entre investimento e desenvolvimento
É nessa etapa que a qualidade da engenharia passa a influenciar diretamente o retorno do capital investido no setor e acrescer ao capital social pós entrega. A questão, portanto, deixa de ser apenas quanto o país consegue investir e passa a envolver quanto desenvolvimento consegue produzir com esse capital. Quando concebida a partir das necessidades reais do território e administrada ao longo de todo o seu ciclo de vida, a infraestrutura deixa de ser apenas uma obra concluída e passa a funcionar como ativo capaz de sustentar produtividade, ampliar serviços e criar novas oportunidades econômicas e sociais.
“A infraestrutura tem valor quando consegue mudar a realidade ao seu redor. O papel da engenharia é fazer com que essa transformação seja tecnicamente viável, economicamente sustentável e capaz de continuar gerando resultados depois que a obra deixa de ser um projeto e passa a fazer parte da vida da região”, finaliza Jorge Henrique Marques Valença.
Sobre Jorge Henrique Marques Valença

Jorge Henrique Marques Valença é engenheiro civil e empresário, especializado na gestão de grandes obras e desenvolvimento de empreendimentos de alta complexidade. Com mais de 30 anos de experiência, atua como Sócio-Diretor da LUMALI Engenharia, liderando projetos nas áreas de infraestrutura, cultura, mobilidade urbana, edificações especiais e saúde. Ao longo da carreira, participou da implantação de importantes obras públicas no Nordeste e consolidou uma experiência em planejamento executivo e desenvolvimento de negócios.




