A criatividade deixou de ser tratada como habilidade secundária nas escolas e passou a ocupar espaço central em projetos pedagógicos voltados à resolução de problemas reais. Em diferentes instituições de ensino, atividades práticas, pesquisas e experiências colaborativas têm sido usadas para estimular o pensamento criativo desde a educação infantil até os anos finais do ensino fundamental.
A proposta aparece alinhada à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em vigor desde 2019, que inclui a criatividade entre as competências gerais da educação básica. O tema também ganhou relevância internacional após a inclusão de questões voltadas ao pensamento criativo no Pisa, avaliação coordenada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), em 2021.
Na prática, escolas têm buscado fugir de respostas prontas e apostado em metodologias que colocam o estudante no centro do aprendizado. Em vez da repetição mecânica de conteúdo, os alunos são incentivados a investigar situações do cotidiano, criar hipóteses, construir protótipos e trabalhar em grupo.
Parque de diversões virou laboratório de aprendizagem e criatividade
Na Escola Villare, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, um projeto com estudantes do quinto ano utilizou um parque de diversões para abordar conteúdos de física, tecnologia e artes.
Segundo a coordenadora pedagógica Vivian Munhoz, o tema foi escolhido para aproximar os conteúdos da realidade dos alunos e despertar interesse antes mesmo da apresentação formal das disciplinas.
“Muitos não sabem o que faz o carrinho da montanha-russa ganhar velocidade ou o carrossel girar, mas todos gostam desses brinquedos.”
O trabalho começou com uma excursão. Durante a visita, os estudantes brincaram nos equipamentos, observaram o funcionamento das atrações e entrevistaram engenheiros e operadores do parque.
Depois da experiência, a turma passou a desenvolver réplicas funcionais dos brinquedos no ateliê de tecnologia da escola. Os alunos tiveram acesso a materiais variados, como madeira, plástico e circuitos elétricos, para construir os projetos.
A avaliação ocorreu ao longo de todo o processo. Foram observadas habilidades manuais, uso das ferramentas, interação entre os integrantes dos grupos e os questionamentos levantados durante a atividade.
Processo criativo exige estímulo contínuo
Para Karen Teixeira, especialista em educação integral do Instituto Ayrton Senna, o pensamento criativo precisa ser desenvolvido de maneira intencional dentro da escola. Ela afirma que a habilidade não surge automaticamente, mesmo em disciplinas tradicionalmente ligadas à criação, como artes.
Segundo a especialista, a avaliação também deve considerar todo o percurso de aprendizagem, e não apenas o resultado final apresentado pelos estudantes.
“O estudante precisa saber o quê está aprendendo e o porquê.”
A abordagem por projetos aparece como uma das estratégias mais adotadas para estimular esse processo. Em muitas escolas, o modelo busca integrar diferentes áreas do conhecimento em torno de um mesmo problema.
Projetos ambientais aproximam teoria da realidade
No Centro Educacional Pioneiro, na zona sul da capital paulista, alunos do sexto ano participaram de um projeto voltado à escassez hídrica, tema ligado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
A proposta envolveu pesquisas sobre consumo de água e a construção de miniaturas de cisternas para captação da chuva. Segundo a coordenadora de ciências Marcia Sacay, os estudantes começaram calculando o gasto de água em casa antes de conhecer os sistemas de coleta.
Depois disso, passaram a pensar em soluções práticas. Escolheram materiais, desenharam protótipos e realizaram testes para avaliar o funcionamento das estruturas criadas.
Marcia afirma que algumas séries da escola trabalham sem livros didáticos, priorizando projetos interdisciplinares. Para ela, o formato favorece uma aprendizagem mais conectada à realidade e permite integrar diferentes competências ao mesmo tempo.
A economista da educação Priscilla Albuquerque Tavares, especialista da FGV, afirma que o modelo pode reduzir a quantidade de informações transmitidas, mas amplia a profundidade da aprendizagem.
“A quantidade de informação nessa metodologia é menor, mas a qualidade da informação é maior”, afirma.
Segundo ela, os professores não devem recear uma eventual redução do conteúdo teórico, já que o trabalho por projetos ajuda os estudantes a aprofundar conceitos e desenvolver múltiplas habilidades simultaneamente.
Autonomia e colaboração desde a infância
Na Escola Móbile, os projetos começam ainda na educação infantil. Crianças de 5 anos participam de atividades ligadas ao estudo do movimento a partir de brincadeiras e desafios práticos.
Primeiro, observam os movimentos do próprio corpo. Depois, utilizam força para deslocar brinquedos e exploram rampas, blocos e obstáculos para movimentar bolinhas.
Ao longo das atividades, os professores apresentam perguntas que estimulam investigação e experimentação.
“Como fazer a bolinha ganhar velocidade? Como fazer movimento de curva? Como fazer para que a bolinha suba uma rampa?”
Segundo a diretora pedagógica Tatiana Almendra, as crianças aprendem enquanto brincam, testam soluções e compartilham descobertas com os colegas.
“Elas ampliam suas descobertas, testam, observam, trocam com os colegas. Fazem tudo isso brincando”, afirma.
Tatiana diz que, mesmo sem receber definições formais sobre conceitos físicos, os alunos começam a compreender noções de velocidade, direção e força durante as experiências. Além disso, desenvolvem repertório para trabalhar em grupo, lidar com frustrações e formular perguntas sobre situações do cotidiano.
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/grupo-de-criancas-com-professora-caminhando-no-corredor-da-escola_13996170.htm




