Na quarta-feira de cinzas, o Bloco Mulheres Rodadas voltou às ruas do Flamengo, na zona sul do Rio de Janeiro, para transformar o carnaval em espaço de denúncia. Neste ano, o coletivo homenageou Maria da Penha Fernandes e chamou atenção para o recorde de feminicídios registrado no país em 2025.
Entre as fantasias, a pernalta e acrobata Luciana Peres, de 46 anos, chamou atenção ao desfilar com uma marca de tiro pintada no corpo e lantejoulas prateadas simbolizando eletrochoques. A performance fazia referência às tentativas de assassinato sofridas por Maria da Penha em 1983, quando foi atacada pelo então marido. O caso se tornou um marco no enfrentamento à violência doméstica no Brasil e, mais de duas décadas depois, deu origem à Lei Maria da Penha, sancionada em 2006.
“Eu não consegui pensar em outro assunto que não fosse a luta pela vida das mulheres”, disse Luciana. “Tenho refletido muito sobre os 20 anos da Lei Maria da Penha, em 2026 e, em contraposição, o recorde de feminicídio, em 2025”, comentou a artista e produtora cultural.
Segundo o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, o Brasil registrou 1.518 vítimas de feminicídio no ano passado, o maior número da série recente. Para as integrantes do bloco, o dado reforça a urgência de ações estruturais. “A gente precisa de políticas públicas, senão, todos os dias, mulheres vão morrer”, completou Luciana.
Performances contra o assédio e o feminicídio
Criado em 2015, o Mulheres Rodadas nasceu com a proposta de discutir assédio, violência doméstica e feminicídio em pleno carnaval. O desfile combina música, intervenções cênicas e acrobacias. Tintas vermelhas simulam agressões, enquanto movimentos coreografados representam tanto a violência quanto a solidariedade entre mulheres.
Durante a execução de “Geni e o Zepelim”, as pernaltas encenam episódios de violência transfóbica, lembrando que o Brasil também figura entre os países com maiores índices de assassinatos de pessoas trans. Em outros momentos, uma artista puxa a outra do chão, gesto que simboliza apoio e união.
A trilha sonora é definida com cuidado pela regente e coordenadora de percussão, Simone Ferreira. O repertório privilegia compositoras, intérpretes mulheres ou músicas que exaltam a condição feminina, em diálogo direto com as performances.
Entre as canções estão “Abre Alas”, “Vai Malandra”, “Ama Sofre Chora”, “Tieta” e “Vermelho”. O repertório inclui ainda sucessos internacionais como “Toxic” e “Girls Just Want to Have Fun”.
Homenagens internacionais e denúncia global
A edição deste ano reuniu turistas e artistas estrangeiras. A pernalta francesa Lucie Cayrol, de Toulouse, prestou homenagem à advogada franco-tunisiana Gisèle Halimi, destacando sua atuação na despenalização do aborto na França, em 1975.
Lucie também mencionou o caso de Gisèle Pelicot, que lançou recentemente um livro de memórias. Durante uma década, Pelicot foi dopada pelo ex-marido, que convidava homens para estuprá-la. O agressor foi condenado à prisão pela Justiça francesa em 2024. Para as participantes do bloco, o episódio evidencia que a violência contra a mulher é um problema global.
A coordenadora do Mulheres Rodadas, a jornalista Renata Rodrigues, afirma que o tema central do coletivo segue atual mesmo após dez anos de atuação. “Nós somos um dos poucos coletivos, no Rio, que discute a violência contra a mulher no carnaval”, disse.
Segundo ela, o debate precisa ultrapassar o período festivo. O grupo cobra apoio do poder público e da iniciativa privada para ampliar o alcance das ações e fortalecer campanhas permanentes de enfrentamento à violência de gênero.
No meio do público, o folião Raul Santiago destacou a importância do engajamento masculino. “Os homens precisam estar junto, precisam mudar a atitude e a forma de pensar, ser antimachista, entender os lugares sociais e defender a igualdade”, afirmou.
Ao ocupar as ruas do Flamengo com música, crítica social e memória histórica, o Bloco Mulheres Rodadas reafirma o carnaval como espaço político. Em meio à folia, o recado ecoa: sem políticas públicas eficazes e compromisso coletivo, os números de feminicídio continuarão a crescer.
Fonte: Agência Brasil
Foto: https://unsplash.com/pt-br/fotografias/um-grupo-de-mulheres-de-pe-uma-ao-lado-da-outra-7IaZlDVs1AQ




