O agravamento da crise entre Estados Unidos e Venezuela, intensificada no início deste ano após a captura do presidente Nicolás Maduro por ordem do presidente norte-americano Donald Trump, acendeu um alerta no Brasil. Para o advogado Diego Felis Sales, especialista em imigração e relações internacionais, o País precisa se preparar para um período prolongado de instabilidade regional, com reflexos diretos na fronteira norte, na política migratória e na segurança.
“Toda vez que há uma intensificação de sanções ou ações militares que atingem diretamente a economia venezuelana, o efeito imediato é o aumento do deslocamento populacional. O Brasil, como país fronteiriço, sente esse impacto primeiro”, afirmou Sales.
Segundo ele, sinais recentes indicam que o governo brasileiro já trabalha com essa hipótese. “A movimentação das forças de segurança indica preocupação com esse cenário”, completou.
Migração venezuelana já pressiona o Brasil
Dados da plataforma regional R4V mostram que quase 6,9 milhões de venezuelanos vivem atualmente fora do país, espalhados principalmente por nações da América Latina e do Caribe. O Brasil aparece entre os principais destinos desse fluxo migratório.
Desde o início da crise humanitária na Venezuela, mais de 680 mil venezuelanos ingressaram em território brasileiro. A maior parte entrou por Roraima, porta de entrada terrestre, e foi posteriormente redistribuída para outros estados por meio do programa de interiorização coordenado pelo governo federal.
Para Diego Felis Sales, o arcabouço jurídico brasileiro permite o acolhimento humanitário, mas a execução continua sendo o principal desafio. “Reforçar a segurança é necessário, mas não suficiente. É preciso ampliar a coordenação entre União, estados e municípios, além de fortalecer parcerias internacionais para evitar sobrecarga dos serviços públicos e garantir a proteção dos direitos humanos”, continuou o especialista.
Diplomacia e equilíbrio regional
No campo diplomático, o advogado avalia que o Brasil terá de adotar uma postura cuidadosa. O País, segundo ele, precisa defender a estabilidade regional e manter o diálogo multilateral, sem romper com parceiros estratégicos e sem ignorar os efeitos internos de uma crise que ocorre em um país vizinho.
Para os próximos dias, Sales aponta dois cenários principais. O primeiro envolve a contenção do conflito, com manutenção de sanções e ações pontuais, o que permitiria ao Brasil administrar os impactos por meio do reforço da segurança e das políticas de acolhimento. O segundo cenário prevê uma escalada regional, com aumento expressivo do fluxo migratório, maior pressão sobre Roraima e riscos ampliados à segurança e à economia local.
Em ambos os casos, a avaliação predominante entre especialistas é que os efeitos da crise entre Estados Unidos e Venezuela já ultrapassaram o campo diplomático. O tema passou a integrar, de forma permanente, a agenda brasileira de segurança, imigração e política externa.
Força Nacional reforça fronteira norte
Como resposta preventiva, o Ministério da Justiça e Segurança Pública autorizou o envio de reforços da Força Nacional para áreas consideradas sensíveis da fronteira norte, especialmente em Roraima. A medida busca ampliar o controle territorial, coibir atividades ilícitas e monitorar possíveis novas ondas migratórias.
A operação tem duração inicial prevista de 90 dias. Além da questão migratória, o especialista chama atenção para impactos indiretos no campo econômico e da segurança regional. A instabilidade na Venezuela pode comprometer rotas comerciais, elevar custos logísticos e favorecer a atuação de organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas, ao contrabando e à exploração ilegal de recursos naturais em regiões fronteiriças.
Disputa política e petróleo venezuelano
No domingo (11/1), Donald Trump publicou na rede Truth Social uma imagem de seu perfil na Wikipedia afirmando ser o “presidente interino da Venezuela” desde janeiro de 2026. A postagem ocorreu dias após uma operação norte-americana realizada na madrugada de 3 de janeiro, por volta das 3h no horário de Brasília, que resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em Caracas.
Trump também declarou que empresas dos Estados Unidos passarão a explorar o petróleo venezuelano, que concentra a maior reserva da commodity no mundo. Maduro e Cilia deverão ser julgados em território norte-americano.
A resposta do governo venezuelano veio por meio de Delcy Rodríguez, apontada como presidente interina. “Vi algumas imagens na Wikipedia sobre quem manda na Venezuela. Bem, aqui há um governo que manda na Venezuela, aqui há uma presidente em exercício e há um presidente refém nos Estados Unidos, e governamos junto com o povo organizado”, disse a presidente interina.
Enquanto a disputa política se intensifica, o Brasil acompanha o cenário com atenção redobrada, ciente de que os desdobramentos da crise podem atingir diretamente seu território, sua população e sua posição regional.
Fonte: Gazeta de São Paulo
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