Hospitais, laboratórios e redes de farmácias do setor privado vão testar, a partir de um projeto-piloto, um modelo de integração e compartilhamento de dados de pacientes, sempre mediante autorização. A iniciativa reúne instituições de peso no sistema de saúde brasileiro e busca tornar o atendimento mais ágil, reduzir desperdícios e ampliar a qualidade clínica, sem alterar a titularidade das informações.
Participam do piloto os hospitais Beneficência Portuguesa de São Paulo, Sírio-Libanês e Alemão Oswaldo Cruz, além dos laboratórios Fleury, Dasa e Sabin Diagnóstico e Saúde, e do grupo RD Saúde, controlador das redes Raia e Drogasil. O projeto recebeu o nome de OpenCare Interop e foi anunciado nesta segunda-feira (15) pelo InovaHC, braço de inovação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em parceria com a B3, a bolsa de valores do Brasil.
A expectativa é que o modelo entre em operação no prazo de seis a oito meses. A inspiração vem do mercado financeiro, que há alguns anos adotou o open finance, sistema que permite o compartilhamento de dados bancários entre instituições, desde que haja consentimento explícito do cliente. Na saúde, a lógica é semelhante, mas com desafios adicionais ligados à sensibilidade das informações médicas e à necessidade de garantir segurança jurídica e tecnológica.
Integração para reduzir exames e melhorar decisões clínicas
Na prática, a interoperabilidade permitirá que dados clínicos acompanhem o paciente ao longo de sua jornada, independentemente do hospital, laboratório ou farmácia onde ele seja atendido. A proposta é diminuir a repetição de exames, facilitar a transferência do cuidado entre serviços e garantir acesso mais rápido a informações críticas, sobretudo em situações de urgência.
Para médicos e equipes de saúde, o sistema tende a apoiar decisões clínicas mais qualificadas, reduzir erros e evitar redundâncias. Também há impacto direto em áreas como telemedicina, saúde digital e coordenação do cuidado, além de criar bases mais consistentes para a formulação de políticas públicas no futuro.
“Vamos respeitar a questão da LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados]. A pessoa estará ciente de tudo, quais são os dados compartilhados e para qual finalidade. Chamamos de empoderamento do paciente. Ele vai falar quem pode utilizar o dado e para qual finalidade”, afirma Marcia Ogawa, conselheira do InovaHC e gestora do projeto OpenCare Interop.
Segundo os organizadores, hospitais também se beneficiam com a redução de desperdícios e a melhora da eficiência operacional. Na pesquisa científica, o acesso estruturado a grandes volumes de dados pode acelerar a identificação de padrões, tendências epidemiológicas e a realização de ensaios clínicos mais rápidos e precisos.
“Os dados dos pacientes devem acompanhá-lo na atenção primária, secundária e terciária, seja no sistema público ou privado. E aí elegemos a interoperabilidade como o projeto central de 2026”, afirma Giovanni Guido Cerri, presidente do InovaHC.
O impacto econômico é outro argumento central. “A interoperabilidade pode gerar uma economia de 15% na saúde como um todo. Também é fundamental para a sustentabilidade econômica, para evitar repetir exames, procedimentos, consultas e, ao mesmo tempo, poder fazer com que um doente que seja atendido num pronto-socorro possa ter disponível todos os dados dos atendimentos anteriores e os exames já feitos. Repetir tudo de novo retarda e diminui a eficiência do atendimento”, diz Giovanni.
De acordo com o InovaHC, não haverá custo para o projeto-piloto. A B3 participa com a infraestrutura tecnológica necessária para viabilizar o compartilhamento seguro das informações. Caso a viabilidade do modelo seja comprovada, está previsto um sistema de compensação pela disponibilização dos dados entre os participantes.
A ambição do projeto vai além do setor privado. A expectativa, no médio prazo, é envolver também o Sistema Único de Saúde, ampliando o alcance da interoperabilidade e criando uma base de dados mais integrada em nível nacional. O piloto terá duração de um ano, período em que serão avaliados aspectos técnicos, regulatórios e operacionais.
“Faremos o piloto por um ano. A ideia é depois estender o projeto. O piloto é para mostrar que podemos utilizar a tecnologia do mercado financeiro na saúde com eficiência”, finaliza Guido Cerri.
Para os participantes, o projeto também tem um papel institucional. “O sistema privado representa 25% da população. Ter a segurança de um prontuário de informações fluindo com todos os protocolos é muito importante. O hospital [Oswaldo Cruz] participa desse projeto para contribuir, se colocar à disposição e a serviço desse avanço para a sociedade”, diz o CEO do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, José Marcelo de Oliveira.
As farmácias, por sua vez, reforçam sua posição como ponto inicial da jornada de saúde. “É muito legal estar aqui porque podemos mostrar ao mercado a ressignificação e o resgate do papel da farmácia. Muitas vezes é lá que o paciente começa a consolidar a sua jornada de saúde. Se ele tem um ortopedista que dá uma medicação para o joelho, é no balcão que começamos a entender quem está cuidando desse paciente, as possíveis interações e como esse dado pode fazer a diferença no cuidado e na eficiência dele”, diz João Paulo Oliveira, do grupo Raia Drogasil.
Por que o Reino Unido aposta na integração com a rede privada
O NHS britânico e o SUS brasileiro podem ser considerados irmãos, criados com o mesmo princípio e objetivo, e, atualmente, compartilham também dos mesmos dilemas. Ambos enfrentam pressão por longas filas e limitação de capacidade em áreas especializadas, o que tem levado os governos de ambos os países a apostar em parcerias com o setor privado para acelerar o atendimento.
O cardiologista, que reside no Reino Unido, Dr. Victor Duque Estrada Zeitune, observa que os dois países caminham “por rotas diferentes, mas impulsionadas pelo mesmo problema: a necessidade urgente de ampliar oferta sem perder qualidade”. Segundo ele, “a universalidade se mantém como princípio, mas o modelo tradicional já não dá conta da demanda sozinho”. Saiba mais clicando aqui.
Fonte: Folha de São Paulo
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