Pequenas e médias empresas têm participação relevante na economia brasileira, mas muitas ainda concentram decisões estratégicas e conhecimentos operacionais em seus fundadores. A adoção de práticas de governança corporativa pode ajudar a distribuir responsabilidades, organizar processos e preparar os negócios para crescer sem depender exclusivamente de uma única liderança.
Dados compilados pelo Sebrae indicam que os pequenos negócios representam 95% das empresas brasileiras, respondem por 30% do Produto Interno Bruto (PIB) e foram responsáveis por 61% dos empregos criados no país em 2024. Apesar desse peso econômico, a organização interna continua sendo um desafio para empreendedores que acumulam funções e tomam decisões sem procedimentos previamente estabelecidos.
Com a regulamentação da Reforma Tributária, o cenário empresarial brasileiro inicia uma nova fase. Mais do que a substituição de tributos e o reajuste na arrecadação, a implementação do novo modelo promove uma reformulação estrutural na gestão de riscos, no planejamento estratégico e no funcionamento operacional das corporações. Especialistas destacam que, ao longo do período de transição nos próximos anos, compreender os impactos dessa mudança tornou-se atribuição fundamental da governança corporativa, indo além das fronteiras do setor tributário.
Essas modificações estarão em debate na palestra conduzida pelo jurista Dr. Myke Oliveira Gomes, advogado, auditor, professor e autor especialista. Realizada por iniciativa das Subseções da OAB de Cabo Frio e de Arraial do Cabo (RJ), a conferência é voltada para advogados, contadores, acadêmicos e empresários, com o intuito de analisar as implicações práticas da Reforma Tributária no cotidiano das organizações e na conduta de executivos e gestores jurídicos.
Governança começa com regras claras
A governança corporativa não exige, necessariamente, conselhos formais ou estruturas complexas. Nas pequenas e médias empresas, ela pode começar pela definição de quem decide, quais são as responsabilidades de cada integrante e como os sócios acompanham os resultados.
“Governança não precisa começar com um conselho formal”, afirma Daniella Leite, CEO da FBN Brasil (Family Business Network), organização que conecta famílias empresárias para a troca de experiências e boas práticas em temas como governança e sucessão, entre outros.
A executiva explica que empresas menores podem avançar estabelecendo acordos objetivos sobre responsabilidades e formas de diálogo entre os envolvidos na gestão. Essas medidas ajudam a organizar a rotina e a reduzir a concentração de decisões no proprietário ou em um grupo restrito de pessoas.
“Esses acordos ajudam a empresa a depender menos de decisões concentradas e a se preparar para crescer e atravessar mudanças, inclusive uma possível sucessão. Direcionar a atenção para isso desde cedo pode evitar problemas no futuro”, diz Daniella.
Entre as iniciativas possíveis estão reuniões periódicas entre sócios, definição de pautas, registro das decisões e estabelecimento de limites para gastos e contratações. Separar as finanças pessoais das contas empresariais também contribui para melhorar o controle dos recursos e a compreensão dos resultados.
Outra medida envolve criar critérios para a participação de familiares na empresa. Em negócios familiares, combinar antecipadamente as condições de entrada, as atribuições e as responsabilidades de cada pessoa pode diminuir conflitos e tornar as relações profissionais mais transparentes.
Crescimento exige organização da gestão
À medida que uma empresa amplia sua equipe, conquista clientes e estabelece novas relações com fornecedores, aumenta também a quantidade de decisões necessárias para manter a operação. Quando não existem responsabilidades bem delimitadas, o crescimento pode gerar sobrecarga para os fundadores e dificuldades de comunicação entre as áreas.
Paulo Moreira, CEO do Grupo LPJ, empresa que atua na transformação de negócios com estratégia, tecnologia, gestão e conhecimento especializado, chama a atenção para o momento em que muitos empreendedores percebem a necessidade de rever a estrutura administrativa.
“Muitas empresas que estão no início da jornada só percebem a falta de governança quando o crescimento começa a gerar desorganização ou quando o fundador já não consegue centralizar todas as decisões”, afirma Paulo Moreira.
A criação de processos, indicadores de desempenho e níveis de autonomia permite acompanhar a operação e identificar problemas com maior clareza. Com essas referências, os gestores conseguem avaliar resultados, distribuir tarefas e estabelecer parâmetros para decisões que antes dependiam exclusivamente do fundador.
“O ideal é fazer esse movimento antes da crise. Criar processos, indicadores, níveis de autonomia e responsabilidades claras permite que a empresa cresça de forma mais previsível e dependa menos de uma única pessoa.”
Planejamento sucessório precisa de antecedência
A continuidade dos negócios é outro aspecto relacionado à governança. Em empresas familiares, a transferência de responsabilidades pode envolver mudanças na liderança, preparação de sucessores e alinhamento de expectativas entre diferentes gerações.
Quando o assunto só aparece diante de uma doença, aposentadoria ou conflito entre sócios, o tempo disponível para organizar a transição pode ser insuficiente. O planejamento antecipado permite identificar competências, compartilhar conhecimentos e preparar outras pessoas para assumir funções estratégicas.
Essa organização também reduz os riscos associados à ausência temporária do principal responsável pela empresa. Se processos e informações essenciais estiverem documentados, outros profissionais poderão dar continuidade às atividades com menos interrupções.
Medidas simples podem fortalecer a empresa
O primeiro passo é identificar quais decisões e tarefas dependem exclusivamente do empreendedor. Em seguida, é possível registrar procedimentos importantes, definir responsáveis por cada atividade e estabelecer como os resultados serão acompanhados.
Uma pergunta ajuda a avaliar o nível de organização do negócio: se o fundador precisasse se afastar por um mês, a equipe saberia quem deve tomar decisões e como manter as operações?
Caso a resposta seja negativa, a situação pode indicar a necessidade de distribuir melhor as responsabilidades e formalizar acordos. Não é necessário implementar todas as mudanças de uma vez. Reuniões regulares, processos documentados e regras compreendidas pelos envolvidos já podem contribuir para uma gestão mais organizada.
“Não é preciso resolver tudo de uma vez. Reuniões regulares e acordos claros já ajudam a reduzir a dependência de uma única pessoa e dão mais segurança para o negócio seguir em momentos de mudança”, finaliza a CEO da FBN Brasil.
Para as pequenas e médias empresas, a governança representa uma forma de preparar a estrutura de gestão para os desafios cotidianos e para as mudanças futuras. Ao adaptar as práticas à realidade do negócio, o empreendedor pode fortalecer a tomada de decisões, reduzir vulnerabilidades operacionais e ampliar as condições para a continuidade da empresa.
Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/pessoas-de-tiro-medio-olhando-atraves-de-particoes_34219951.htm




