O NHS britânico e o SUS brasileiro podem ser considerados irmãos, criados com o mesmo princípio e objetivo, e, atualmente, compartilham também dos mesmos dilemas. Ambos enfrentam pressão por longas filas e limitação de capacidade em áreas especializadas, o que tem levado os governos de ambos os países a apostar em parcerias com o setor privado para acelerar o atendimento.
O cardiologista, que reside no Reino Unido, Dr. Victor Duque Estrada Zeitune, observa que os dois países caminham “por rotas diferentes, mas impulsionadas pelo mesmo problema: a necessidade urgente de ampliar oferta sem perder qualidade”. Segundo ele, “a universalidade se mantém como princípio, mas o modelo tradicional já não dá conta da demanda sozinho”.
O movimento do Reino Unido para reduzir filas: o que está por trás da nova estratégia do NHS
Nos últimos anos, o tempo de espera para cirurgias e consultas no NHS atingiu níveis recordes. Em 2025, o governo britânico anunciou um acordo nacional para contratar mais de 1 milhão de procedimentos por ano da rede privada, com o objetivo de cumprir o padrão máximo de 18 semanas para tratamentos eletivos.
A ampliação dessa parceria tem sido debatida abertamente pelo primeiro-ministro e defendida como medida de urgência. “A fila por grandes procedimentos só diminui de forma consistente quando a rede privada cede leitos e integra sua tecnologia ao sistema público”, explica Victor Duque Estrada Zeitune.
“Pacientes submetidos a cirurgias que evoluem com complicações acabam ocupando leitos por mais tempo e bloqueando a capacidade de giro. É nesse momento que a colaboração com hospitais privados se torna essencial. Quando há leitos adicionais disponíveis, os centros cirúrgicos da rede pública não precisam parar.”
Ele destaca que recrutamento de força de trabalho, tecnologia e novos centros cirúrgicos do setor privado se tornaram parte estratégica do planejamento: “A meta é reduzir filas sem criar barreiras financeiras para o paciente, tudo continua sendo pago pelo NHS.”
Brasil busca solução semelhante com o Agora Tem Especialistas
No Brasil, o Ministério da Saúde adotou caminho semelhante ao lançar, e posteriormente transformar em lei, o programa Agora Tem Especialistas, que prevê a contratação de hospitais e clínicas privadas para complementar a rede pública em consultas, exames e cirurgias.
O governo federal reservou R$ 440 milhões para a expansão do programa, priorizando especialidades como cardiologia, ortopedia, ginecologia, oncologia e oftalmologia. A iniciativa também prevê credenciamento contínuo de unidades privadas em todo o país.
Para o cardiologista, o paralelo com o Reino Unido é claro: “Assim como o NHS fez, o Brasil está tentando transformar o setor privado em um aliado operacional, não em uma substituição do SUS. A diferença é que começamos esse movimento mais tarde.”
Ele acrescenta que o sucesso depende da capacidade de gestão: “A parceria funciona quando há regras claras, métricas objetivas e monitoramento. Sem isso, o setor privado pode virar apenas uma muleta cara, e não uma solução.”
Desafio da integração: como cobrar e pagar a conta entre público e privado
Ao comparar os modelos, Dr. Victor Duque Estrada Zeitune destaca que o maior obstáculo prático para integrar leitos privados ao sistema público sempre foi o faturamento hospitalar. A forma de cobrança criava conflito, custo adicional e atrasos.
“O ponto mais trabalhoso quando a rede pública usava a rede privada era a fatura hospitalar. Como que a rede privada ia cobrar da pública? Se usasse a tabela privada, ficava muito caro. Se fosse por itens, agulha, seringa, oxigênio, laboratório, exigia contratar uma empresa para auditar tudo. Saía mais caro do que realmente era”, explica.
A solução veio com um modelo de precificação acordado entre as partes: a diária global. “Foi acordado uma diária global, uma diária fixa, como se fosse de hotel. De acordo com a complexidade, havia um valor que não cabia nem mais nem menos. Então só se fiscalizava o número de diárias. Se o paciente ficou 10 dias e a diária era R$3 mil, cobrava R$30 mil, acabou. Sem atrito, sem auditoria, sem disputa de faturamento”, detalha.
Segundo ele, essa padronização reduziu conflitos, aumentou a previsibilidade e tornou a parceria mais eficiente: “Facilitou a cobrança, facilitou o recebimento e eliminou um custo burocrático enorme para os dois lados.”
Onde os modelos divergem: financiamento, estrutura e impacto regional
Apesar das semelhanças na estratégia recente, NHS e SUS operam com lógicas distintas. O financiamento britânico é centralizado e per capita, enquanto o SUS se apoia em múltiplas fontes federativas. Isso afeta diretamente a previsibilidade orçamentária.
Segundo Zeitune, esse é um ponto crucial: “O NHS tem um orçamento único, o que facilita reorganizar recursos rapidamente. O SUS, por outro lado, sofre com desigualdades regionais que dificultam a distribuição equitativa de novos serviços, mesmo quando há verba.”
Ele ressalta que a expansão das parcerias no Brasil pode acentuar desigualdades se não for planejada com atenção territorial. “Se as unidades privadas aderirem majoritariamente em grandes centros, regiões mais carentes seguirão com filas maiores. O desenho da política precisa enfrentar esse risco.”
Lições cruzadas: o que cada sistema pode aprender com o outro
Para o especialista, a aproximação entre público e privado não deve ser vista como fragilização, mas como modernização, desde que acompanhada de controle rigoroso. Nesse cenário, o médico destaca três pontos centrais:
- Uso eficiente da capacidade instalada – “Ociosidade no setor privado e superlotação no setor público são realidades simultâneas. Integrar os dois é racional.”
- Contratos orientados a resultados – “Não basta comprar consultas; é preciso exigir qualidade, segurança e tempo de resposta.”
- Proteção da força de trabalho pública – “Se a parceria for desregulada, o SUS e o NHS perdem profissionais para o privado. É preciso manter incentivos que preservem o equilíbrio.”
Sobre Victor Duque Estrada Zeitune

Dr. Victor Duque Estrada Zeitune é cardiologista com atuação no Brasil e no Reino Unido. Especialista em Cardiologia Clínica, já foi diretor hospitalar, chefe de UTI e consultor em serviços de emergência e UTI móvel. Tem formação em Gestão de Saúde Empresarial e recebeu a Medalha Tiradentes da Alerj por serviços prestados à saúde pública. Atualmente, desenvolve projetos ligados à integração entre sistemas de saúde públicos e privados.
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